Ler amostra · Episódio 1
Prólogo — O livro que não existia
Este relato tem um defeito de origem: começa num sonho, e sonho não é evidência. Eu sei disso. Peço que o leitor saiba que eu sei.
Sou médico. Há vinte e um anos preencho documentos em que a primeira regra é separar o que o paciente sente do que o exame mostra. Queixa e achado — duas colunas, e um abismo entre elas. Este relato vai tentar obedecer à mesma regra. Vai falhar, e aviso desde já onde: desta vez, a queixa é minha.
Na noite de 12 para 13 de junho, acordei às 3h41 com a certeza de ter lido um livro que não existe. A hora eu sei porque olhei. Olho sempre. Anoto os horários em que acordo desde os vinte e seis anos de idade, e essa é uma das coisas que, segundo me disseram a vida inteira, eu faço demais. Pode ser. As anotações continuam certas.
O livro chamava-se O Decano de Lúcifer.
Vi a capa com a nitidez com que se vê uma peça anatômica bem fixada: couro escuro, cor de fígado — não o vivo; o de laboratório, depois do formol. As letras do título não eram impressas em tinta. Eram fundas, feitas por pressão, como se alguém tivesse escrito apertando. Não havia nome de autor.
E li a primeira frase do livro. Essa, inteira. Sei essa frase de cor da maneira como sei o peso de um recém-nascido que não respirou: sem querer, para sempre. “Toda luz pode ser rebaixada, desde que o homem seja convencido de que nunca a viu acesa.”
No sonho, achei a frase bonita. Acordado, acho pior. Acho-a tecnicamente correta.
A amostra termina aqui. O Episódio 1 segue pela busca, pelo capítulo que ninguém escreveu, e pela primeira semana medindo a casa.